A participação ativa e decisiva das mulheres na luta revolucionária

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O 8º Congresso da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) do Norte de Minas e Sul da Bahia, realizado no município de Januária em 10 e 11 de outubro, foi um acontecimento de grande importância não só para o movimento camponês combativo, mas para todo o movimento revolucionário, democrático e popular no Brasil. A cobertura das atividades do Congresso renderão matérias para várias edições do AND.

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Faixa do MFP em manifestação realizada durante o 8º Congresso da LCP em Januária (MG)

Gostaríamos de destacar de forma especial, nesta edição, a participação ativa e decisiva das mulheres nesse Congresso e na luta revolucionária.

Muitas companheiras estiveram presentes e participaram ativamente da organização e realização do Congresso: dirigentes camponesas, professoras, estudantes, ativistas e mães que tiveram seus filhos encarcerados ou assassinados pelo velho Estado fascista demonstraram com falas firmes e na prática que as mulheres, tanto do campo quanto da cidade, cumprem um papel decisivo na luta e que sem sua participação não poderá haver uma Revolução de Nova Democracia no Brasil.

Dentre tantas mulheres lutadoras do povo presentes, conversamos com duas delas: Dirce, ativista camponesa na luta contra o latifúndio, e Deise, ativista da luta contra a política de genocídio do povo pobre e negro praticada pelo Estado.

Derrubar a quarta montanha

Dirce conta que faz parte da Escola Popular localizada nas áreas da revolução agrária de Canaã, Raio do Sol e Renato Nathan II, região de Jaru, estado de Rondônia.

Eu era do movimento estudantil e me mudei da cidade onde vivia para uma área camponesa em Rondônia com a compreensão de que a revolução irá começar no campo. [...] E a Escola Popular é a porta de entrada, um espaço que você tem a possibilidade de trabalhar principalmente com a Educação de Jovens e Adultos. A Escola Popular é para levar a ciência e a técnica a serviço do povo.

Dirce também é ativista do Movimento Feminino Popular (MFP) e fala da sua importância para que as mulheres do povo se organizem, mobilizem e participem da luta revolucionária.

Eu também participo do Movimento Feminino Popular. Uma organização que é para elevar a participação das mulheres na luta […] e que separa as mulheres numa organização específica, mas não para tirá-las do movimento camponês, para tirá-las da Escola Popular, para tirá-las do movimento estudantil, mas para que elas impulsionem a militância delas em sua área de atuação. O lema do MFP é ‘Despertar a Fúria Revolucionária da Mulher’, ou seja, que a mulher se lance para a revolução.

Ela também deixa claro que a luta não se faz apenas com estudos e que a prática é fundamental, devendo, assim, haver uma união entre a teoria e a prática para que as mulheres se lancem cada vez mais com consciência política e de classe no processo revolucionário.

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A participação das mulheres é decisiva para a vitória do povo

  A teoria vem da prática, então para que se eleve a politização e a consciência da mulher na luta, ela precisa ter tarefas práticas também e não só estudo. Senão seria só sentar para estudar os textos do MFP, das revoluções. […] Tem que ter as duas coisas.

Dirce fala sobre a emancipação da mulher e que, para isso, as mulheres precisam lutar contra uma quarta montanha: a opressão do sexo feminino, que é milenar e só pode ser combatida pelas mulheres que estão lutando concretamente junto com sua classe para destruir as outras três montanhas que pesam sobre todo o povo (o imperialismo, o latifúndio e a grande burguesia).

Nós temos que ganhar os homens para a causa da emancipação feminina e uma das formas é que a mulher assuma a tarefa concreta. O que o machismo coloca: a mulher é inferior ao homem. É como se ela não tivesse capacidade. E a gente vai mostrar com a prática que tem. […] Nisso elas desenvolvem muito a consciência e a capacidade que têm e que muitas vezes elas mesmas pensavam não ter.

A outra questão que a gente também fala muito é que do socialismo para o comunismo é necessário um longo período de revoluções culturais. [...] Quando as questões econômicas estiverem resolvidas a terra coletivizada e cortada para os camponeses, as fábricas coletivizadas, o imperialismo expulso e se está na construção do socialismo, você tem a questão das ideias atrasadas que você não arranca de uma vez e sim com as revoluções culturais. Antes de chegar ao comunismo você tem três resquícios da sociedade de classes: a diferença entre o trabalho intelectual e o manual, a diferença entre o campo e a cidade e a entre o homem e a mulher. Então isso está no campo da ideologia, dos valores. O MFP é um movimento em que você irá discutir essas questões que parecem ser pequenas, mas que são fundamentais e muito ideológicas. Que é a questão de como você educa seu filho, de como o companheiro trata a sua esposa. E o que nós temos a ver com isso? Então, o companheiro é um excelente dirigente, é um líder exemplar, mas ele chega em casa e não conversa com a mulher sobre a luta, ele não chama a mulher pra lutar. [...] São possibilidades de discutir essas questões desde agora.

Onde você tem povo, você têm mulheres em luta e que se destacam. Por terem um serviço a mais que os homens, por terem que cuidar da casa e dos filhos, muitas vezes elas não têm o mesmo tempo para militar que eles. Mas quando elas se lançam, quando elas têm um movimento feminino que as apoiam, quando desenvolvem sua militância e a consciência dessa opressão a mais, elas se lançam na luta com um vigor maior —conclui Dirce.

Mulheres e mães na luta contra o Estado fascista

Deise Carvalho, 44 anos, é fundadora do movimento Núcleo de Mães Vítimas de Violência do Estado (RJ). Teve o seu filho morto após ter sido brutalmente espancado e torturado por seis agentes do “sistema socioeducativo”.

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A guerreira Deise Carvalho

Ela já foi entrevistada em outras ocasiões pelo AND e nos encontramos em lutas e atividades dos movimentos populares. Dessa vez, nosso encontro foi no 8º Congresso da LCP em Januária. Lá, a mulher combativa da cidade se juntou às camponesas nas colunas de bandeiras vermelhas na combativa manifestação que percorreu as ruas da cidade e participou dos debates.

No dia 1º de Janeiro de 2008, meu filho Andreu, de 17 anos, foi torturado e espancado por seis agentes do sistema socioeducativo, que hoje eu rotulo de sistema sociotortura, porque de sistema socioeducativo não tem nada. Então hoje, juntamente com outros movimentos, eu tenho lutado por esses jovens em conflito com a lei que são muito discriminados. Uma vez que os jovens têm passagem pelo sistema socioeducativo, eles são perseguidos até a morte por agentes do Estado [...] Nós temos ainda aqueles que apoiam e incentivam a violência como muitos jornalistas da mídia burguesa, chamando nossos filhos de ‘sementinha do mal’, que ‘bandido bom é bandido morto’. Isso é um incentivo à violência. É muito revoltante saber que nós somos olhados como escórias da sociedade, como se nós fossemos lixo. E eu hoje nessa luta tenho mostrado que nós não somos essa escória da sociedade burguesa, nós não somos o lixo que não dá pra se reciclar nessa sociedade burguesa. Nós temos vidas, temos sentimentos; nós temos vontade própria e a minha vontade de lutar por esses jovens e pelo o que aconteceu com o meu filho, que foi torturado pelo Estado, e que eles alegaram que meu filho tinha tentado fugir e caiu de um muro. Mas quem cai de um muro não tem mais de 30 perfurações pelo corpo, quem cai de um muro não tem a mandíbula deslocada, não tem o pescoço quebrado, não tem a costela quebrada. Quem cai do muro não tem deslocamento da retina dos olhos; quem cai do muro não tem o afundamento de crânio da forma que o meu filho teve. Então hoje são sete anos de lutas.

Eu, como mãe vítima de violência, não quero ver mais uma mulher, mais uma mãe dizer: ‘mataram o meu filho!’ Não quero ouvir mais isso! No dia em que eu tive a notícia da morte do meu filho foi o pior dia da minha vida! […] O Estado me tirou o direito de ser mãe, me tirou o direito de ser avó, tirou o direito do meu filho de ser tio. Eles mataram o meu filho, mas eles não tiraram o meu direito e a vontade de lutar! Enquanto eu estiver viva, pode vir ameaça de policiais, pode vir a ameaça de quem for, eu vou continuar mantendo a minha posição de denúncia e de dizer o que esse Estado faz. Tanto no Rio quanto fora do Rio eu vou continuar denunciando o fascismo desse governo que hoje nós estamos vivendo. Essa legislação que praticamente eles rasgam. Rasgam a constituição brasileira quando tomba mais um filho de um negro, porque todos têm o direito à vida!

Deise fala sobre a opressão e omissão do Estado fascista, reforçando a necessidade de seguir lutando com garra e como a mulher tem tido um papel fundamental estando na linha de frente dos movimentos contra os crimes praticados pelo Estado.

Tenho procurado, diante da minha luta, diante de tudo que aconteceu com o meu filho, ajudar outras mães também nesse movimento, que perderam seus filhos pro Estado, que foram barbaramente assassinados por esse sistema fascista e demagogo que é o Estado, não somente no Rio de Janeiro, mas também em todos os estados, São Paulo, Minas, Alagoas, onde outras mães estão passando por isso. E dizem né, num ditado popular, que a mulher é um sexo frágil, mas a mulher de sexo frágil não tem nada, porque, quando ela perde um filho ou quando alguém toca num filho dela, ela tem muita força e muita determinação.

Quando o Estado legitima uma ação violenta, tanto de funcionários públicos, como do sistema socioeducativo [Degase], e quando o Estado legitima policiais a matarem e não serem punidos dentro da lei, ele está dizendo assim: ‘vai lá e mata, continua a matar’. A lei vale para o pobre, mas não vale para o funcionário público, não vale para o policial corrupto, assassino. […] Porque eles [grandes burgueses] não botam a UPP lá no Leblon, porque não botam a base da UPP dentro da Barra, dentro dos condomínios luxuosos? Eles querem a polícia dentro da favela pra poder matar o pobre todo dia, mas não querem eles dentro dos seus condomínios. Eles não querem proteção? Eu, dentro da comunidade, não quero a proteção do Estado. Porque eu tenho visto crianças, senhoras morrendo de balas perdidas, vitimadas por esse Estado. Nós não aguentamos mais essa violência. Tanto na região urbana quanto na região não urbana [campo].

Teve um pai que uma vez me perguntou: ‘qué, mas só existem mães vítimas de violência?’ Existem os pais vítimas de violência, mas são as mulheres que estão à frente da luta. São as mulheres que têm levantado a bandeira para poderem dizer: chega de chacinas! Chega dessa violência estatal! Chega de extermínio do jovem negro e pobre dentro da comunidade! São as mulheres que estão na linha de frente. Nós queríamos muito que os homens abraçassem a causa dessas mães.

Finaliza apoiando a luta camponesa:

A Liga dos Camponeses Pobres tem todo apoio das Mães Vítimas de Violência no Rio! Todo apoio que legitima a ação de conquistar a terra! Seja qual o preço que for eles têm o direito de conquistar a terra!

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