O papel de Jeiza

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Numa avenida movimentada, em meio aos transeuntes, policiais trocam tiros com traficantes. Em virtude da própria perseguição uma moça, em trabalho de parto, vê-se impedida de chegar ao hospital. No momento crítico surge uma policial, armada com um fuzil de assalto, que realiza, ali mesmo, um parto de relativa complexidade.

Atriz posa junto a moradores de favela | Foto: Arquivo pessoal
Atriz posa junto a moradores de favela | Foto: Arquivo pessoal

Trata-se de uma cena da novela das nove da TV Globo. Num momento de desmoralização crescente do Estado em geral, e das forças policiais em particular (desde o caso Amarildo, passando pelo fracasso das UPP’s até a revelação de que “Caveirões” têm sido alugados por grupos de traficantes), eis que a emissora dos Marinho escala a sua “musa” do momento para representar Jeiza, uma oficial da PM do Rio de Janeiro. Uma loba em pele de modelo.

‘Corações e mentes’

Na novela não existem “balas perdidas”: as ações da “policial boazinha” são sempre certeiras, ao contrário do que ocorre diariamente nas favelas e bairros pobres, dessangradas por uma política de extermínio ostensiva contra seus moradores, inclusive aqueles que nada têm a ver com o tráfico varejista.

Se o tal “realismo” da trama, ressaltado por seus idealizadores, não passa portanto de um engodo, as intenções por trás da ficção, estas sim, correspondem a interesses bem determinados: revelam como, nos veículos monopolizados de comunicação, notícia e ficção se confundem para inculcar nas pessoas um conjunto de valores e ideias que as façam naturalizar aquilo que, no seu cotidiano, é absurdo e inaceitável – como trocas de tiros em meio a carros e ônibus cheios de pessoas a caminho de casa (cena anteriormente descrita), quando, neste caso, o prejuízo menor seria a fuga dos supostos criminosos. Tanto a novela quanto o telejornal, cada vez mais articulados, buscam reduzir os complexos fenômenos sociais a meros casos de polícia, num amplo espectro que abarca desde a “grande política” (“o mar de lama”) até brigas de vizinhos, campeãs naqueles programas sobre ações policiais.

O que, de resto, não significa nenhuma novidade. Não há guerra que possa prescindir da conquista de “corações e mentes”, o que é válido igualmente para a Guerra de Baixa Intensidade – às vezes escalando a outras alturas – mantida contra os pobres no nosso país. Guerra injusta, reacionária, que por isso mesmo só pode legitimar-se à custa de sofisticados artifícios ideológicos e dinheiro, muito dinheiro.

Como se sabe, o termo “conquistar corações e mentes”, base das chamadas “operações psicológicas”, foi cunhado pelo exército ianque durante a guerra genocida no Vietnã, a primeira com cobertura ao vivo das emissoras de televisão. Desde então, este conceito foi exportado para todos os países, utilizado como estratégia das forças agressoras para buscar legitimar suas ações junto à opinião pública interna e externa. Assim:

“Operações psicológicas são as operações que incluem as ações psicológicas e a guerra psicológica. Compreendem as ações políticas, econômicas, psicossociais e militares, planejadas e conduzidas para criar num grupo (inimigo, hostil, neutro ou amigo) emoções, atitudes ou comportamentos favoráveis à consecução dos objetivos. [...] A ação psicológica é a ação que congrega um conjunto de recursos e técnicas para gerar emoções, atitudes, predisposições e comportamentos em indivíduos ou coletividades, favoráveis à obtenção de um resultado desejado1. (Negrito meu).

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