Crimes do regime militar-fascista: o sempre dizível poder da memória (1ª parte)

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O livro O indizível sentido do amor, de Rosângela Vieira Rocha, foi lançado há poucas semanas em Brasília, em agosto. A obra narra a busca obcecada de uma mulher brasileira (ela mesma, a autora) pelo passado de seu marido, um discreto/silencioso militante político de esquerda brutalmente torturado na juventude, antes de se casar, pelos facínoras dos militares.

Livro de Rosângela Vieira relata resistência de seu marido,
o militante José Antônio, nos cárceres do regime militar
Livro de Rosângela Vieira relata resistência de seu marido, o militante José Antônio, nos cárceres do regime militar

Agosto de 2017. Trinta e oito anos após a anistia desfrutada pelos fascistas fardados, por meio de obras como a de Rosângela os familiares das vítimas continuam mostrando que não se esqueceram do sangue derramado. O marido, José Antônio Simões, não foi um preso "famoso", seu nome não está entre os mais citados, e nem a autora teve qualquer ativismo político. Talvez justamente aí resida um dos méritos do livro: até os "invisíveis" estão falando.

A história de José Antônio teve que ser resgatada pela esposa em Portugal, onde morava Alípio de Freitas, digno membro do Conselho Editorial de AND falecido há pouco.

Conversando com ele, já bem idoso e cego, Rosângela descobriu que o seu amado "Jacaré" (era assim que ela chamava o marido) sofreu violências indescritíveis quando esteve preso junto com o próprio Alípio, na década de 1970.

Além disso, Alípio lhe brindou um relato por escrito, que ela reproduz parcialmente no livro e resumimos aqui: "[...] Durante muito tempo o Zé António foi meu companheiro de viagem (pelo Brasil) [...] viajamos a pé, dias e noites, por serras e vãos, de camioneta e de boleia [...] foi com ele que organizei o primeiro congresso do Partido Revolucionário dos Trabalhadores".

"Logo a seguir viajamos para o Rio com a finalidade de organizar uma base do PRT. Foi durante esse trabalho de implantação do Partido que a traição nos surpreendeu, levando-nos à prisão e a tudo aquilo que você vê escrito no meu livro Resistir é preciso. Devo dizer-te, deixar bem claro, que a atitude do José António foi a de um homem de honra, que não se deixou amedrontar mesmo tendo de suportar grandes dificuldades. Saídos do DOI-CODI fomos para o DOPS do Rio de Janeiro e mais tarde transferidos para (o presídio da) Ilha Grande (tido como um inferno)".

Obras que incluem textos como este de Alípio fazem parte de um capítulo especial da história do Brasil, que se recusa a apagar a violência e a dor causadas pelos golpistas de 1964.

Conforme alguns relatórios, foram cerca de 430 vítimas, entre mortos e desaparecidos. Mas e os que foram feridos, no corpo e na alma e não morreram? E os trabalhadores que perderam seu ganha-pão? E os camponeses pobres, que perderam seus pedaços de terra que já eram pequenos, expulsos pelos fazendeiros amigos/aliados do regime autoritário? E os que perderam seu direito a ler/escrever/estudar/trabalhar/sonhar/saber?

O marido de Rosângela, por exemplo, era um cientista formado em Física, mas nunca teve a chance de atuar profissionalmente nesta área devido ao risco de ser localizado e preso de novo.

E os cerca de 8 mil índios que foram exterminados, dos quais talvez nunca se venha a saber sequer seus nomes e as tribos às quais pertenciam?

Mesmo faltando ainda levantar muitíssimos dados sobre os 21 anos de truculência protagonizada pelo gerenciamento militar-fascista do velho Estado, há uma memória sedenta de justiça que aflora sem parar, ano após ano, como um pesadelo sem fim a perseguir os criminosos.

Isso apesar dos bolsonaros, dos generais-de-pijama, dos membros da bancada ruralista, da bala e da bíblia, dos meirelles e da corja de banqueiros similares, dos gilmares-mendes, dos aécios, dos fernandos (Cardoso, Collor etc), dos temers, e seus cúmplices e/ou patrões internacionais e nacionais teimarem em pensar que o povo brasileiro padece de uma espécie de amnésia, que em tese "salvaria" a eles e a outros grandes bandidos de uma ação revolucionária.

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