Os valentes chiriguanos

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A história da pouco conhecida nação indígena da Bolívia, cuja origem pode ser brasileira, do litoral de Santa Catarina, que no século 19 optou pela resistência armada.

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Tipos de máscaras e artesanato da cultura chiriguana

Como toda verdadeira nacionalidade que pretende converter-se em nação, a Chiriguana (Ava) tem sua própria história e também naturalmente momentos especiais nos quais se manifestam, com toda a força, as aspirações de autodeterminação.

A nacionalidade Chiriguana havia sido despojada de seus territórios e visto sua população ser completamente explorada desde as épocas coloniais (séculos 16 a 19). O chiriguano não aceitou nunca a dominação — fosse quêchua (incas) ou colonial, e nem a republicana — e assim coincidimos com Lorenzo Calzavarini (La nación chiriguana, Edit. Amigos del libro) quando sustenta que eles resistiram à dita dominação com todos os meios a seu alcance.

A chegada da República (na Bolívia) não constituiu nenhuma garantia, sequer um paliativo, à sua situação de cultura agredida. Pelo contrário: o saque e o genocídio alcançariam, com a República, níveis muito altos. A nacionalidade Ava tomou, então, o caminho da resistência armada.

A batalha de Kuruyuki

Lorenzo Calzavarini relata a célebre batalha de Kuruyuki como ponto culminante da ação nacional ava para conquistar a liberdade e a autodeterminação. Podemos dizer que é precisamente a batalha de Kuruyuki um dos momentos constitutivos mais importantes da nação Ava por sua independência e citando Angélico Martarelli, do Colégio Franciscano de Potosí:

"No dia 27 do mesmo mês, janeiro de 1892, em Santa Rosa, coordenam-se as forças nacionais (da República). No dia 28 se dá o sinal de guerra. São 1500 índios aliados (Nota do autor: no Brasil, como por exemplo os genocidas bandeirantes, e na América Latina, foi comum as classes dominantes utilizarem índios para combater índios. Os ditos "aliados", na maioria das vezes, eram tribos escravizadas ou semi-escravizadas, levadas a lutar ou pela força, ou estimuladas por falsas animosidades ou em troca de "benefícios"), com suas flechas e facões. São ainda 50 soldados de linha, 100 rifleiros e 40 nacionais de escopetas.

No total, um número de 1.690 homens ao mando dos senhores D. Ramón González e do Tenente Coronel D. Tomás Frías.

Marcham contra Kuruyuqui. A batalha começa às 8 da manhã e termina às 4 da tarde. Luta-se em três frentes: Kuruyuqui, Ñancorainza e Itiyuru, estas duas últimas abertas com a chegada de novos contingentes nacionais.

O selvagem (chiriguano) lutava com uma coragem verdadeiramente surpreendente, decidido a vencer ou a morrer. Caíam mortos a balas e flechas, mas não por isso desanimavam: os gravemente feridos não soltavam seus arcos e flechas e mesmo moribundos avançavam contra os nossos para vitimá-los. Houve momentos, é preciso que confessemos, de hesitação e desânimo entre os nossos, pois a hoste inimiga, vendo as muitas baixas em suas fileiras, feitas pelo nutrido fogo de nossos soldados, reagia com uma decisão incrível. E, redobrando sua coragem, atacava com tal ímpeto que por duas vezes fez retroceder a todas as nossas forças.

O general González, com seu temerário arrojo, rodeado pelos inimigos, foi levemente ferido em um braço e seu cavalo recebeu sete flechaços. Teria morrido, sem dúvida, se a força mandada pelo senhor Frías não houvesse lhe socorrido com todo seu denodo, rapidez e veemência, desalojando o inimigo de sua primeira trincheira e cobrindo o campo com uma multidão de cadáveres. Mais sangrento e tenaz foi o ataque contra a segunda trincheira, onde estavam alojadas muitas famílias de selvagens (Nota do autor: note-se a ação covarde, contra provavelmente velhos, crianças e mulheres chiriguanas). O caminho foi disputado palmo a palmo até que os fossos ficassem cheios de cadáveres. Mas ao fim os nossos penetraram na trincheira principal, vitimando a todos que opunham resistência e queimando seus ranchos.

Uma vez expulsos os inimigos para fora de suas fortificações, acreditou-se que eles fugiriam. Porém, pelo contrário, continuaram batendo-se com uma desesperada coragem até que o General González, vendo que acabava a munição da força, ordenou tocar a retirada a seu quartel-general de Santa Rosa.

(...) A dúvida sobre o êxito do combate de Kuruyuqui e o valor demonstrado pelos selvagens deixou bastante preocupado o general González e a todos os demais. Felizmente, no dia seguinte chegou a notícia da dispersão dos selvagens de Kuruyuqui. O general em pessoa quis fazer um reconhecimento para certificar-se da verdade e observou que, realmente, os inimigos haviam abandonado o acampamento e suas trincheiras, dispersando-se a diversos pontos. Acharam muitos feridos e suas famílias no cerro de Aguarague e se fez muitos cativos.

Então se revelou, em sua realidade, o trágico espetáculo do horrendo estrago que o fogo graneado dos rifles havia feito nas filas inimigas, estando os fossos das trincheiras repletos de cadáveres...".

O grande líder

A cabeça dos valentes guerreiros ava se encontrava um personagem histórico, o Tumpa (líder) Apiaguaiqui. Ele é o libertador e senhor que luta contra a tirania dos "bolivianos". O Tumpa, como sempre ocorre nesses casos dramáticos, depois do combate foi traído por um de seus subalternos, o caci que Guantinguay, que comprado pelos bolivianos, possibilitou a captura do líder, seu suplício e fuzilamento, por ordem de Melchor Chavarría.

O autor Calzavarini cita Martelli no que toca aos dados do combate que, como se viu, constituiu uma guerra genocida contra uma nação que lutava por sua sobrevivência opondo-se a um Estado nacional opressor e racista. Que considerava "selvagens" os homens que defendiam seu solo, suas famílias, suas mulheres e seus filhos.

A matança foi imensa. E se somamos os mortos e feridos da batalha, e outras menores na mesma época, chegamos a 6.200 pessoas. A nação chiriguana caiu heroicamente, combatendo em condições desiguais contra militares primitivos mas já experientes em matar indefesos.

O perigo das ONGs

Termina aqui nossa análise da nação Ava, com a esperança de que nesta hora decisiva da história ( início dos anos 2000) eles possam encontrar os caminhos da reestruturação nacional junto a seus irmãos do Chaco, da Amazônia e dos Andes.

A Assembléia do Povo Guarani (APG) está lutando para conseguir um território amplo que possa satisfazer às necessidades econômicas mínimas dessa nação. A superfície total do território demarcado seria de um pouco mais de 3.291.203 hectares dos 10 milhões de hectares reivindicados originalmente pelas comunidades chiriguanas. Foram titulados unicamente 63 mil hectares.

A nação Ava (Chiriguana) tem, como temos dito sempre, o pleno direito à autodeterminação. No entanto, é preciso esclarecer que organismos internacionais que visam reservar terras, sob o pretexto de proteção à biodiversidade e ajuda às populações e nações originárias, estão implementando políticas muito perigosas que consistem em "representar" esses legítimos interesses (indígenas) para benefício próprio.

Ao extremo de que algumas concessões territoriais estão saindo em nome dessas ONGs, o que naturalmente representa um despropósito que somos obrigados a desmascarar.


*Autor do livro El desafío de las naciones: naciones y nacionalidades oprimidas en Bolivia (La Paz, Liberación Editores, 2003)

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Os chiriguanos foram brasileiros?

Rosana Bond

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Artesã chiriguana

Jorge Echazú Alvarado registra, em sua obra El desafío de las naciones, que os chiriguanos supostamente foram ocupantes de uma área do Chaco bem próxima às montanhas andinas, "são um ramo importante dos tupi-guaranis que migraram a partir do Brasil, passando pelo Paraguai e paulatinamente vieram em direção à zona de assentamento atual, buscando o que eles chamaram, e chamam, de ´terra sem mal".

É possível que assim seja.

Para escrever nosso mais recente livro, A saga de Aleixo Garcia: o descobridor do império inca, publicado há pouco pela Coedita, obrigatoriamente tivemos que pesquisar algo sobre os chiriguanos. Mas é preciso que façamos uma breve introdução. Aleixo Garcia, um marujo português que naufragou em Santa Catarina em 1516, personagem quase desconhecido no Brasil, realmente foi o "descobridor" dos incas. Adotado pelos guaranis-cariós catarinenses, viveu anos nas redondezas da atual Florianópolis, junto a esses índios.

Por volta de 1523, os guaranis contaram a Aleixo um precioso segredo: havia um caminho sagrado, conhecido como Peabiru ou Tape Avirú, que saía do litoral de Santa Catarina e levava até os Andes. Lá habitava um povo que tinha cidades de pedra e também muito ouro e prata. Eram os incas. Aleixo, acompanhado de uma multidão de índios, fez a enorme caminhada. Atravessando Santa Catarina, Paraná e Paraguai, finalmente chegou ao Alto Peru (atual Bolívia), em pleno império inca, descobrindo aquela importante civilização pelo menos sete anos antes do espanhol Pizarro. Em nosso livro, levanto a questão: como os cariós de S. Catarina, ponto situado a milhares de quilômetros da cordilheira dos Andes, tinham informações tão precisas?

A resposta é relativamente simples. Acontece que os cariós do Paraguai e outros grupos guaranis faziam entradas aos Andes há centenas de anos, provavelmente através do fácil Caminho de Peabiru. Portanto, diz o paraguaio Júlio Cesar Chaves, "era lógico que os índios da costa brasileira e do estuário (do rio da Prata) tivessem uma boa informação, pois pertenciam à grande família dos guaranis".

Como os cariós de Santa Catarina e os cariós de Assunção faziam parte do mesmo grupo, era de supor que os conhecimentos sobre a área andina fossem partilhados por ambos, não se podendo descartar, inclusive, que alguns guaranis do litoral catarinense tivessem participado pessoalmente de tais viagens.

Os autores que estudaram a freqüente presença dos guaranis na cordilheira andina a classificaram de diversas formas: como migração, invasão, ofensiva, guerra ou tentativa de conquista.

"...Pode-se dizer que estes grandes movimentos não integram tanto a proto-história dos povos guaranis como sua própria história, pois até sua cronologia é possível reconstruir, embora não com muita certeza, devido à confusão e contradição documental", diz Efraim Cardozo.

Por volta do ano 1400, aproximadamente cem anos antes da conquista da América, teria havido um notável ataque dos guaranis às terras incas. "...Haverá como cem anos que, daquela parte onde está a cidade de Assunção, saíram companhias e quadrilhas deles (guaranis), os quais passaram por grandes bosques e povoações e chegaram às serras do Peru onde fizeram grandes guerras...", diz um antigo documento anônimo, da respeitada coleção de D. Blas Garay.

O grupo guarani, de acordo com relato do padre Diego de Alcaya, era bastante numeroso: "...Alistaram-se até oito mil índios guaranis, grandes flecheiros, com suas mulheres e filhos e uma intenção de não voltar mais a seu (território) natural...".

Essa descrição de Alcaya nos leva a pensar que esse deslocamento teve como objetivo a migração e não um ataque guerreiro, já que os guaranis levavam consigo mulheres e crianças. De qualquer forma, no interior da atual Bolívia acabou acontecendo o primeiro confronto armado, no qual os guaranis mataram os capitães incas Guacané e seu irmão Condori, a quem chamaram "os filhos do Sol".

Esses dois peruanos teriam sido enviados pelo soberano Tupac Inca Yupanqui para conquistar aquela área boliviana e usavam vestes muito ricas. "...aos dois capitães puseram o nome de filhos do sol, pelo tipo de vestimenta que tinham e pelas chapas de ouro e prata fixadas em suas túnicas...", observa Alcaya (Nota da autora: se a data de 1400 está correta o monarca era, então, Pachacútec Inca Yupanqui.)

Ao saber, em Cuzco, capital do império, da morte de seus dois comandados, o Inca (soberano) enfureceu-se e enviou "mais de seis legiões" para conter os invasores guaranis, diz Alcaya. O encontro das tropas adversárias teria se dado em plena cordilheira. Quinhentos guaranis teriam morrido e 200 presos. Outros teriam conseguido escapar de volta ao Paraguai e uma parte teria ficado dispersa nos sopés da cordilheira, dando então origem aos índios chiriguanos (chiriguanás). Os 200 prisioneiros teriam sido conduzidos a Cuzco e, por ordem de Tupac Yupanqui (ou de Pachacútec), atados num cume nevado, completamente nus e com as mãos e os pés amarrados. Como os guaranis eram oriundos de terras quentes, acabaram morrendo de frio. "Ao saber disso, o Inca levantou-se de seu trono, muito contente e exclamou em voz alta: Halla, halla, Chiripiguanachiri!" conta o autor anônimo da Descripción del rio de la Plata. Acreditamos que a exclamação do Inca tenha sido: "Allallau! Chiripiguanachiri!" No idioma quêchua, praticado pelos incas, allallau é a mais corriqueira interjeição exprimindo o sentir frio. Expressão sem correspondente em português, seria algo parecido com "brrr! brrr!". Assim, a frase de Yupanqui poderia ser traduzida como: "Brrr! Brrr! Foram castigados pelo frio! ou "Brrr! Brrr! Não agüentaram o frio!". O vocábulo chiri-piguanachiri é derivado de chiriguanaj (pronuncia-se chiriguaná), que significa "aquele que não agüenta o frio" ou "aquele que se amedronta com o frio".

Os cronistas Pedro Sarmiento de Gamboa (1570) e Miguel Cabello Balboa (1586) dizem que o episódio relatado acima ocorreu no reinado de Huayna Capac, portanto bem mais tarde. E Erland Nordenskiöld no artigo A invasão guarani ao império inca no século 16: uma histórica migração indígena também dá a entender que essa invasão aconteceu na época de Huayna e que se refere àquela realizada por Aleixo Garcia e os indígenas da Ilha de Santa Catarina. Como se vê, é grande a confusão de datas e protagonistas. Mas, quanto ao fato em si, uma coisa é certa: ele efetivamente aconteceu.

Os guaranis remanescentes dessa guerra — que segundo Gandia durou dois anos — e que ficaram dispersos nas encostas da cordilheira boliviana, receberam o nome de chiriguanás (chiriguanos, chiriuanos). Por serem considerados pelos incas, de forma geral, como o povo cujo organismo não suporta temperaturas baixas. Com o tempo, o designativo chiriguanos parece ter se ampliado entre os andinos, servindo para nomear genericamente todos os guaranis, incluindo os do Paraguai e do Brasil.

Sobre a busca da Terra Sem Mal pelos chiriguanos, mencionada por Echazú Alvarado, em nosso livro consideramos importante levantar a seguinte questão: O que teria motivado as entradas dos guaranis nos Andes durante centenas de anos?

A resposta constitui um desafio. Enquanto as migrações em direção ao leste, ao oceano Atlântico, foram exaustivamente estudadas e parecem ter um componente religioso — a busca do paraíso, chamado de Terra Sem Mal — os movimentos no rumo do oeste, para os lados da cordilheira andina e do oceano Pacífico, ainda estão no terreno das hipóteses.

Uma delas seria a de que as caminhadas guaranis ao oeste também teriam um viés religioso. Seria a tentativa de aproximarem-se do deus Tupã, ou Tupá. Uma divindade "cuja morada se localiza na direção oeste, no poente" (Maria Dorothea Post Darella, Ore Roipota Yvy Porã — Índios guarani, terras, meio ambiente e cultura no litoral de Santa Catarina).

Os pontos cardeais, vistos pelos guaranis em conformidade com o sol e com seu trânsito pelo céu, serviriam de morada a deuses e deusas — também conhecidos como "pais" e "mães" das almas. Esses indígenas identificavam e ainda identificam, segundo Maria Dorothea, cinco regiões celestes: o nascente do sol (leste), o poente (oeste), o norte, o sul e o zênite. As quais, respectivamente, seriam moradas dos deuses Karai, Tupã, Jakaira, Kuaray e Nhanderu.

O astrônomo Germano Bruno Afonso, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em palestra no 6º Encontro Brasileiro de Planetários e 6º Encontro Brasileiro de Ensino de Astronomia, realizado em Florianópolis em outubro de 2001, afirmou que tanto o leste quanto o oeste ocupam lugar de destaque na religião e no mito guarani. Uma antiga história fala de dois irmãos (Tupi e Guarani) que viviam juntos e um dia tiveram que separar-se. Os deuses então recomendaram que Tupi procurasse estar sempre perto do nascente (leste) e que Guarani se dirigisse ao poente (oeste). O cacique Werá Tupã (Leonardo), da aldeia do Morro dos Cavalos (SC), em depoimento que reproduzimos em nosso livro, disse que os guaranis procuravam a Terra Sem Mal em todas as direções.

A Terra Sem Mal não existe na Terra, está em outra dimensão. A busca desse Caminho da Terra Sem Mal para cada grupo guarani era diferente. Buscavam em todas as direções. Uns no leste, outros no oeste, norte e sul.

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