As mulheres e a construção da ponte

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A construção da ponte Aliança operário-camponesa contou com a presença ativa das mulheres das áreas organizadas pela Liga dos Camponeses Pobres. Jovens e senhoras se revezaram no preparo da alimentação e diretamente nas atividades da obra.

Elizabeth Ferreira, presidente da Associação dos camponeses do Para Terra I (local onde a ponte foi construída) e tesoureira da grande edificação operário-camponesa, relatou:

—As mulheres estavam na cozinha e os homens na construção, mas no dia que precisava de mais gente nós íamos ajudar também. E foi assim que entramos diretamente na construção da nossa ponte [com ênfase]. Todos os dias tinha mulher no trabalho braçal da cozinha e muitas vezes no trabalho braçal da ponte mesmo.

Durante o período de construção da ponte o número de pessoas que se alimentavam, por refeição, variou de 12 a 70 pessoas. Ela conta ainda que as doações dos camponeses das áreas vizinhas, incluindo as verduras e legumes da horta coletiva, muitas vezes garantiram a alimentação das brigadas de construção da ponte.

Na entrada da cantina uma inscrição é taxativa:

Só come quem trabalha.

Um dia na frente

O Movimento Feminino Popular - MFP — organização de mulheres operárias, camponesas, estudantes e intelectuais a serviço do povo — que visa impulsionar a participação e a direção feminina em todas as etapas das lutas populares, discutiu com as camponesas a necessidade e a importância para as mulheres de que, durante a construção da ponte da Aliança Operário-Camponesa, na frente da produção houvesse um dia de trabalho destinado somente a elas.

A questão é que as mulheres buscavam se inserir na edificação da obra propriamente e não permanecer apenas no trabalho de apoio. Ambos, homens e mulheres, devem estar juntos na linha de frente do trabalho produtivo, revelando um tipo novo de divisão social do trabalho, onde ninguém é menos capaz que o outro.

Para a Liga dos Camponeses Pobres e para o MFP não há nenhuma necessidade de “trocar de papéis”, como aconselham as feministas (integrantes dos movimentos burgueses), mas de provar na prática que homens e mulheres devem se capacitar para assumir os mesmos postos em todas as etapas da luta pela produção, inclusive o de direção.

Aquela era a grande oportunidade de intervir sem provocar rivalidades, mas de revelar a importância do trabalho social quando justamente ele é organizado pelos próprios trabalhadores.

As mulheres responderam prontamente ao chamado do MFP e no último dia de trabalho realizaram a concretagem da obra. A concretagem foi a última etapa do acabamento da obra. Era, portanto um momento bastante especial.

Conta Elizabeth:

— Algumas mulheres acharam que não iriam dar conta do recado, mas, entre todas, foram elas as que mais trabalharam. Vale lembrar que nós já estávamos trabalhando diretamente na obra, antes. Quando dava ou quando precisava a gente estava lá. E sempre dizíamos que se houvesse desistência, nós continuaríamos porque a obra não podia parar de forma alguma.

Ela continua:

— Havia 46 mulheres trabalhando na obra. Trabalhamos das 6h até às 14h. Só quando o trabalho estava concluído é que almoçamos. As mulheres foram divididas em equipes: tinha a equipe que pegava a água, a areia e a pedra. Houve um revezamento das equipes. Assim todas as mulheres tiveram a oportunidade de passar por diversas atividades, além de não ficar pesado para ninguém — completa Elizabeth.

Sem problemas, no dia do trabalho feminino, os homens assumiram a cozinha e somente as mulheres foram diretamente para a construção da ponte. Não houve atrasos, nem acidentes — como em todas as fases da obra.

Para as mulheres camponesas das áreas próximas à Verdelândia, foi uma grande lição estar presente em todas as fases da construção e da divisão do trabalho. Além do domínio da técnica, aprenderam a lutar e a produzir junto com seus companheiros. E, ainda: que as mulheres organizadas têm grande poder em suas mãos, o que fortalece imensamente um movimento popular autêntico e consequente.

Afirma Elizabeth Ferreira:

— Nós olhamos para a ponte e pensamos na vitória que tivemos. Hoje nós sabemos como foi pesado construir essa ponte, como é difícil amarrar uma ferragem ou carregar um carrinho de pedra. Nós participamos de tudo. Então nós sabemos que não é fácil. Nós fizemos tudo aqui com muita luta. E foi bom também porque os homens vieram para a cozinha porque, ás vezes, eles podiam achar que era fácil.

— A gente trabalha na roça, trabalha lavando roupa, fazendo comida e não vai dar conta de fazer a ponte? — contesta Ivonete Alves, coordenadora da cozinha coletiva.

— Antes, nós achávamos que mulher não conseguia realizar atividades de pedreiro, mas agora a gente viu que pode. Então, em todas as obras que surgirem nós vamos trabalhar — conclui Elizabeth.

A força do coletivo

As famílias camponesas de Verdelândia já produziam coletivamente antes da construção da ponte, mas a execução desta obra provou definitivamente que o trabalho coletivo é a melhor forma de superar os obstáculos impostos aos camponeses pobres e a forma mais democrática de construir um poder verdadeiramente popular.

As mulheres da área entendem muito bem a força e a importância do trabalho coletivo porque somente com este tipo de organização conseguiram garantir a execução da obra, anos e anos protelada pelo Estado. Crianças e mulheres grávidas se arriscavam atravessando a pinguela oferecida pelo Estado. Agora elas passam orgulhosas pela ponte que produziram coletivamente com os companheiros da área e com a ajuda dos operários da construção civil.

— Caso a gente tivesse esperado da prefeitura iríamos ficar dois, três anos, ou mais, nos arriscando durante as travessias. Mas como juntou o povo e fez esta aliança nós tivemos uma vitória — afirma Elizabeth.

A fala de Elizabeth mostra também como o trabalho coletivo fortalece a união dos camponeses e os torna mais fortes:

— Uma coisa que você não consegue fazer sozinho, no coletivo é possível. Com a construção da ponte nós nos aproximamos tanto, de forma que não se aguentava um dia sem ver as companheiras. Nós construímos também uma união muito grande. Foi muito bom porque as pessoas se aproximaram muito com o trabalho coletivo. Nós temos outros trabalhos coletivos, mas com a ponte a gente ficou junto no período da seca, quando ia cada um para o seu lote. Então, nós não paramos de trabalhar no coletivo.

Completa Ivonete Alves:

— No coletivo a gente consegue tudo. Às vezes eu quero fazer uma coisa e aí penso: “ah, mas sozinha eu não consigo”. Só que quando a gente junta mais pessoas já consegue fazer .

Durante a execução da obra, os camponeses contaram com o auxílio técnico dos operários da construção civil de Belo Horizonte. Vários operários participaram do trabalho coletivo, ensinando e também aprendendo com os camponeses. Para as famílias camponesas esse auxílio é muito diferente das “ajudas” oferecidas pelo Estado:

— As pessoas que vieram trabalhar, eram voluntárias porque ninguém estava ganhando. Quando a gente vê alguém da prefeitura, dando uma de que está ajudando, pode saber que ela quer é voto. E o povo veio não querendo ganhar nada em troca, mas porque acha importante a construção desta ponte — conclui Elizabeth.

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